1978

Eram quinze para meia-noite quando nasci, numa cesariana que também serviu para impedir minha mãe de ter mais filhos com uma laqueadura. Àquela altura, aos 30 anos, com dois filhos, a chegada do terceiro já devia ser preocupação o suficiente para encarar o risco de mais um. O último João Ninguém da casa não foi planejado, como ela me confessaria uns 25 anos mais tarde, o que sempre me fez pensar no quanto a vida deles seria diferente sem aquele acidente numa, imagino, noite de inverno quando fui concebido - em muitos pontos, para melhor.

Segundo minha mãe, fui o bebê mais calmo de toda a humanidade. Tão calmo que beirava o anormal, do tipo que não chorava nem para mamar. "Ia te olhar no berço e você estava lá, quietinho." Essa calma inata, acredito, teve um papel na nossa ligação, já que meus irmãos - um irmão e uma irmã, na verdade - deram todo o trabalho deles e compensaram a minha parte.

Tinha cinco anos a menos que minha irmã e seis a menos que meu irmão, o que determinava certo isolamento na casa. Se ela naturalmente não tinha interesse em brincar comigo, ele muito menos. Tivemos uma relação tensa por toda a vida, já que eu era o caçula, o paparicado, o "queridinho", como dizia ele sempre que surgia algum conflito. Éramos como água e vinho: ele gostava de MPB, eu de rock; ele detestava esportes em geral e vivia lendo; eu estava sempre na rua, jogando bola, andando de bicicleta e empinando pipa, ele na mureta de casa lendo ou na casa da nossa avó paterna; ele era articulado e expansivo; eu, tímido como o mais tímido dos animais da floresta. A maior parte de minhas memórias com ele na infância são brigas e desaforos, pés passados em rasteira, choro, gritos, socos e ranger de dentes.

Nossa mãe sempre foi dona de casa, do tipo clássica, submissa a seu papel "natural". Só colocava o pé na rua para emergências, não por vontade própria, mas pelo tipo macho à moda antiga de meu pai, um gráfico que tinha convicção de que a mulher deveria ficar no lar e cuidar de absolutamente todo o serviço, e ele cuidar de absolutamente todas as contas sozinho. Irmão mais velho de quatro filhos, ele levava muito a sério a história da responsabilidade sobre o resto da família, de provedor, cuidador e alfa.

O problema é que meu irmão, tal como eu, não era o modelo de equilíbrio, para dizer o mínimo. Sempre foi uma criança muito rebelde, propensa a escândalos na rua e ataques de pelanca, como dizíamos antigamente. Não gostava de contato, não se envolvia com os meninos da rua, e também não gostava muito de ser tocado, nem pela mãe. Num dos chiliques mais lembrados, antes mesmo de eu nascer, começou a se debater dentro de um taxi com eles, porque queria ir por uma rua, mas o caminho era outro. Chutava os bancos e berrava, e não deu outra: foram colocados para fora. Em outra, grudou com as mãos num portão quando ia ao mercadinho com o pai, porque queria chocolate e ele explicou que não tinha dinheiro. O berreiro foi tão grande que atraiu uma viatura da polícia que passava. Quando entendeu o que se passava, o conselho do policial foi simples: "Dá uns tapas nesse menino". Assim foi por quase toda a vida adulta, mas isso fica para outra hora.

Minha irmã não ficava muito atrás, mas os problemas eram de outro tipo. Por razões que só psicólogos infantis explicariam, ela parecia ter satisfação em desafiar a mãe com atos naturais, leia-se defecar e urinar. Como minha mãe lembraria:

Eu acabava de dar banho nela. Colocava um vestidinho novo, trocava a fralda - porque ela grandona, usava fralda ainda - e a sentava na cadeirinha ao lado do seu irmão. Dizia "fiquem quietinhos agora que vou colocar comida". Juro que virava por um minuto; quando olhava de novo, só via a fralda cheia, aquele monte de merda e mijo vazando, pingando no chão, na cadeira. Eu a colocava sentada no peniquinho antes do banho, ela nada. Parece que guardava só pra fazer aquilo, e ficava me olhando com aquele olhar.

Um pouco mais velha, já na escola primária, passou, entre outras peripécias, a cabular aulas para brincar na casa de amigas. Quando meu pai ia à reunião, a professora perguntava porque a filha estava faltando tanto. "Como assim faltando? Ela vai pra escola todo dia". Não exatamente.

E eu? Eu era o panaca que não chorava para mamar, pouco me cagava, não reclamava de nada. Nem coragem de pedir chocolate tinha; morrendo de vergonha, escrevia um bilhetinho tipo "MÃE PAI COMPRA CHOCOLATE POR FAVOR OBRIGADO" e deixava para que vissem. Um anjinho bobo, que se servia de conforto à minha mãe, acabava em conflito com meu irmão por isso. E ter contra você um irmão seis anos mais velho não é muito bom. Em uma de minhas fotos de infância, com uns três ou quatro anos, estou com o olho roxo: ele me passou o pé e bati o resto num banco de madeira. Por pouco não perco o olho.

Como disse antes, não fui planejado. Meus pais se casaram em 1970, meus irmãos nasceram em 1972 e 1973. Eram pobres, dependendo só do salário de meu pai para sustentar quatro pessoas. Apesar disso, tiveram alguns bons momentos, quando ele alcançou um cargo de chefia no setor gráfico de jornais como o Diário do Comércio e DCI. Sem pagar aluguel - moravam numa casa fornecida pelos meus avós paternos -, conseguiram até comprar um carro, o onipresente Fusca. A vida não era ruim, apesar dos pesares.

Aí eu nasci, em 1978. 

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